· 5 min de leitura · Vibeboa
Um app por hora, e o que isso obriga a decidir
De hora em hora, um app do acervo recebe dez funcionalidades novas e vai para o ar. A regra difícil não é o ritmo — é a proibição de inventar qualquer número.
Existe um rodízio rodando no ecossistema. De hora em hora ele pega o próximo app de uma fila, lê o que já existe lá dentro, acrescenta dez funcionalidades novas e reais, garante que a compilação passa limpa, faz o commit e sobe. Depois avança a fila.
Dez, e não uma
O número não é decorativo. Uma funcionalidade por vez cabe numa mudança cosmética — trocar uma cor, mexer num espaçamento — e o app não anda. Dez obriga a abrir o assunto: você esgota o óbvio na terceira e tem de ir procurar o que o app realmente não responde.
No app de Umbanda, por exemplo, o acervo respondia bem "quem é Oxóssi". Não respondia "o que eu faço na quinta às oito, se nunca entrei num terreiro". As dez funcionalidades daquela rodada foram todas sobre a prática: as doze etapas de uma gira, o que vestir, o que levar, o que a fumaça da defumação faz no ar de um salão fechado, e para onde ligar quando alguém ataca uma casa.
A regra que dá trabalho
A regra mais cara do rodízio é a mais curta: nada inventado. Nenhum estudo, nenhuma estatística, nenhuma citação, nenhum preço, nenhum depoimento.
Parece uma restrição pequena até você tentar escrever conteúdo denso sob ela. Um parágrafo que diria "estudos mostram que 68% das pessoas…" simplesmente não pode existir. O que sobra é mais difícil de escrever e melhor de ler: o resumo do consenso, dito como consenso, com um link de busca no PubMed ou no Scholar para a pessoa ler o número na fonte, com o ano ao lado.
- Onde precisaria de estatística: o consenso descrito, e o link para a busca — nunca um número solto.
- Onde precisaria de preço: faixa de referência, com a data da referência na tela.
- Onde precisaria de eficácia: selo graduado, e o que a evidência NÃO mostra dito junto.
- Onde o assunto toca sofrimento psíquico: CVV 188 e CAPS, em destaque, não no rodapé.
O que a proibição melhora
Na página sobre racismo religioso não há uma única estatística. Existem relatórios oficiais, eles mudam a cada edição, e citar de memória é a forma mais rápida de espalhar dado errado sobre um assunto que já sofre com desinformação. A página diz isso com essas palavras e linka a fonte. É menos impressionante e mais útil.
No app de música, o mesmo raciocínio levou a não reproduzir letra de ponto cantado: parte é tradição oral sem autor, parte tem autoria viva, e a fronteira não é nossa para decidir. O app explica a função de cada tipo de ponto dentro da gira — que é justamente a parte que ninguém explica para quem chega — e deixa a letra onde ela é aprendida.
O que ainda não funciona
Compilação limpa não é o mesmo que app funcionando. Nesta semana um app do acervo passou pela compilação, subiu e ficou fora do ar: o servidor mandava o HTML certo e o navegador derrubava a página ao hidratar. Não havia teste que pegasse isso, porque não havia teste.
É o próximo buraco a tapar, e ele é maior que o rodízio: verificar que a página abre de verdade, num navegador de verdade, antes de chamar de pronta.